janeiro 11, 2011

Sobre o entendimento dos pais e a construção do eu.




Sim. Todos nós somos recalcados. Alguns mais que outros. Em uns isso é mais notável do que em outros.
O recalcamento surge da necessidade de protegermos nosso 'eu' de experiências que não nos são bem quistas, sendo assim, o subconsciente a resguarda alguns 'rancores' com relação a elas; porém, isso pode levar à muito tempo de psicanálise (tentei encontrar uma definição do próprio Freud ou outro autor, mas elas eram muito complexas e extensas para o que precisamos no momento. Mais detalhes leia: A história do movimento psicanalítico - Freud).
Contudo, o que quero dizer aqui - sem a inocência de Holden Caulfield, O apanhador no campo de centeio; ou 'Alexander Supertramp', na natureza selvagem -, está ligado ao recalque dos nossos pais. Pois temos muitos medos derivados dos problemas psicológicos deles que são passados para nós através da 'educação'. Embora isso já tenha evitado muitas situações indesejadas, há consequências.
Estou entrando num problema muito mais complexo do que, provavelmente, serei capaz de lidar. Que seja. Através de seus ensinamentos são acolhidos muitas decepções do passado; por exemplo, uma filha que ao ouvir de uma mãe experiências sobre o amor, sendo que ela só teve decepções amorosas, provavelmente fará com que a filha tenha problemas com esse sentimento. Frases como 'seus pai não é e nunca foi o amor da minha vida', pode ter consequências horriveis. Por quê? Simplesmente pelo fato de que, socialmente falando, deveriamos casar com pessoas que amamos, logo, se você não é fruto de um relacionamento como esse, você não se encaixa aos padrões. Isso ainda é mais perigoso quando se trata de adolescentes.
Apesar de tudo, isso nos é necessário, porque é a partir do momento que entendemos que nossos pais são 'humanos', frágeis como nós, que eles também falham e são apenas seres mortais no caos da vida. Assim, nossos laços com eles começam a ser quebrados. É nesse momento que começamos a por em cheque atitudes que não concordamos, ou seja, a construção de nossa 'persona' sem a influência externa da 'educação' é iniciada.
Talvez o último parágrafo seja a definição do que é 'crescer'. Na minha humilde definição, isso ocorre quando conseguimos quando conseguimos enfrentar nossos demônios no espelho (http://luizfelipeponde.wordpress.com/2011/01/03/demonios-no-espelho/). Enfrentarmos o fato de que estamos sozinhos, pode haver pessoas que nos ajudarão em algumas horas, mas as decisões são nossas, e se quisermos viver como 'grandes' é necessário enfrentar isso de peito aberto as consequências.
Por fim, há pessoas que não conseguem conviver com isso. Porém, é para eles que existe a religião e os livros de auto-ajuda, é claro, se primeiro conseguirem deixar os pais para trás. A vida nos devora, corrói toda a ingenuidade e ilusões. Eu não acho que tudo não faça sentido a partir dessas verdades, são elas que dão sentido. Estou sozinho, mas sozinho é que eu posso ser quem eu quiser.

- MatosGabriel

janeiro 02, 2011

Saudade*



Imagem: Edvard Munch

Pedaço de Mim
Composição: Chico Buarque

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus


Chega de Saudade
Composição: Vinícius de Moraes

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai

Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim

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A vida nos trás inumeros 'tchaus', 'adeuses', 'até logo'... Abraços de partida, aqueles momentos que nos deixam com o coração apertado, de alma vizia. Mas não é só isso, também existem os instantes em que a lembrança, a falta do toque, o cheiro ainda vivo daquele afago que já não há, e, igualmente, não haverá.
Sentir é viver, emocionarmo-nos, chorarmos, alegrarmo-nos. Deixar de lado por alguns instanstes a razão e apenas... olhar o mar, as estrelas, lembrar do toque, do sorriso, o sorriso...
Nesses momentos todos os nossos sentidos (olfato, paladar, tato...) tornam-se mais aguçados, nos teletransportamos para momentos que parecem não ter fim. Como se pudessemos vivê-los eternamente.
Penso na morte como um estado de nostalgia sem fim. Com o cérebro já 'desligado', não haverão mais sinapses, estaremos biologicamente mortos; contudo, ainda haverá algo; porém não mais 'nós'. Seremos saudades sem fim em outros neurônios, novas sinápses, outros caminhos. As imágens de 'nós' presentes no 'outro'. Sendo assim, enquanto houver um outro pra sentir a nossa presença, mesmo que efêmera, ainda estaremos vivos. Mesmo que numa história passada de geração em geração. Por que, afinal, somos apenas saudade.

- Normalmente prefero refletir sobre esses assuntos em verso; no entanto, ao lembrar das duas obras de arte supra citadas não tive essa coragem, pois não conseguiria utilizar as metaforas tão bem exploradas por Chico Buarque, nem teria destreteza de Vinícius. Apenas sintetizei em algumas palavras oquê significa 'saudade' pra mim.

Tenho saudade de tudo, até dos momentos de raiva. Eles não vão voltar. Nada que eu queira mudar, apenas quero senti-los pra sempre.

- MatosGabriel

janeiro 01, 2011

Feliz ano velho*



Risca o chão, as paredes e, às vezes, o papel. De risco em risco o 'desenho' toma forma. É a verdadeira arte dadá que surge. Não contente, ele continua rabiscando papel; mas por quê? O que ele precisa dizer? Mal sabe falar. Continua rabiscando. A abstração não existe nesse caso. Olha pra mim, sorri! Os dentinhos tortos, advindos da genética e do hábito de chupar dedo, tornam-se a coisa mais linda do mundo.
Não existe explicação, só basta ele sorrir que tudo se ilumina, tudo se torna azul novamente; toda a tristeza, a dor inerente à minha existencia, se vai. Sou feliz. Tudo é maravilhoso. Seus gestos, suas teimosias, sua inocência, tudo que existe nele e tem algo meu. Bendito egoísmo.
Agora está cansado de ser um artista, decide, então, se tornar um maratonista: corre pela casa. Seus pés chatos dão tapas no chão. "titio, me pega?" - sorri e me inebria.
Por onde passa toca as coisas como se fossem se esvair pra todo sempre depois daquele momento. Fantástico.
Depois de muitas horas 'frenéticas', dorme. E eu fico a observá-lo, como a mamãe pássaro em seu ninho...

- Não gosto de retratar fatos da minha vida, porém essas sensações tiveram uma importância sem igual. Este último dia retratou oquê o ano representou pra mim.
Na virada, nada de mudanças magnificas, riquesa, nada. Só que a sensação desse sorriso me preencha a maior parte do tempo. Só. É isso que eu quero!

P.S.: Tio curuja é foda.

-MatosGabriel