
Imagem: foto de duas esculturas do meu querido amigo Flávio Cerqueira.
Nina
(Chico Buarque)
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou...
No livro "amor líquido", o sociólogo polonês Zygmunt Bauman relata os novos tipos de relações sociais no mundo pós-moderno, e como o amor é, hoje em dia, compreendido. Para Bauman as relações se demonstram líquidas, livre de qualquer tipo de solidez, ou seja, não conseguimos estabelecer laços fortes com os seres da nossa espécie. Vivemos numa época em que, como já disse no texto "a banalização do amor" (http://matosgabriel.blogspot.com/2010/08/banalizacao-do-amor.html), as redes sociais digitais nos dão a possibilidade de conhecer pessoas novas a qualquer momento. Assim, como sabemos, "é da possibilidade que advém o sofrimento", não há tempo necessário para que as relações sejam devidamente solidificadas, pois tudo é muito rápido, desde o ‘conhecer ‘até o ‘amar’.
Não obstante, Nina (música do novo CD de Chico Buarque) relata um amor a distância, 'seu' amor por uma russa, exemplificando a teoria do sociólogo polonês. Embora a exata liquidez não esteja devidamente mostrada, percebe-se que o ser pós-moderno mostrado por Chico sente falta do contato humano, sabemos que a falta do ente amado é sempre motivo de sofrimento, porém, o sujeito que inicia relacionamentos em longa distancia digitalmente sofre, mesmo sem ao menos ter tido o toque. Portanto, ele deseja apenas a idéia do sujeito ‘amado’.
"Nina adora de viajar, mas não se aventura num país distante como o meu". Parece que a solução para este problema é o continuo encurtamento de distância e fronteiras. Mas a liquidez continuará, será que a solução para este último é a eliminação das possibilidades? Nessa nova etapa de compreensão do mundo, a aceitação de que nos são dadas as inúmeras possibilidades e que o tempo passa muito rápido – ele nunca foi tão precioso – seria a forma de aliviarmos o sofrimento inerente a tudo que vivemos. Alguns dizem que somente o além do homem nietzscheano seria capaz de superar tal adversidade pós-moderna, será?
MatosGabriel